domingo, 29 de março de 2009

Cinema Europeu

- Oi eu quero uma inteira e duas meias para Armando Armações das três da tarde. Mecanicamente entrego as entradas, faço o troco. Depois de sete anos nesta profissão você nem nota mais o que faz. Simplesmente entrega os ingressos, aperta o botão e chama o próximo da fila.

Sempre foi assim. As vezes surgiam algumas surpresas igual a loirinha que veio com os primos ou irmãos mais novos ver uma comédia sem graça para adolescentes. Mas era uma breve visão, de não mais de um minuto. Nem me empolgava mais. Detestava usar o uniforme, a camisa com o logotipo do cinema, sentir o cheiro da manteiga na pipoca, que impregnava o ambiente. Era tudo uma mesmice. Não via a hora de dar dez horas e ir embora daquele trabalho.

Hoje era sábado, dia de tomar umas com amigos, chegar no bar e não ter hora para sair. Não importa que no domingo ia entrar as duas horas, não importa que no domingo não tenho tempo de ir no banheiro, não importa que o domingo é o pior dia para quem trabalha em um cinema de shopping.

Vou para Pinheiros, bares de rock, preço justo por uma cerveja, mulheres, sinuca, amigos. Só vou para Pinheiros por que é o meu quintal, literalmente. Pois só assim um cara que tem 35 anos, mora com os pais e trabalha no cinema de um shopping ganhando setecentos Reais pode ir em um bar de Pinheiros sem passar necessidade.

Mas hoje seria diferente. Dois meses sem dar uma trepada. Cara estava ficando difícil pensar em outra coisa que não fosse sexo. Mas hoje mudava. Recebi pagamento na sexta-feira. Pagamento vale transporte e vale refeição, que já foi devidamente vendido e convertido em dinheiro. Nem que eu tivesse que esticar a noite na Augusta, eu não iria amanhecer o domingo sem sexo.

Já eram mais de duas da manhã. Eu não tinha feito nada ainda. Nenhuma mulher tinha sequer me olhado. Ia ser na Augusta que eu ia descontar todo meu estresse. Mas foi aí que eu a conheci. Loira, meio alta, mas parecia uma fada. Será verdade? Será mesmo que ela está afim? Tudo bem, o que vale que já tinha já a esperança de fazer a noite valer a pena.

Conversamos um pouco. Falei que trabalhava com cinema. Ela se interessou, falei que trabalhavam como assistente de direção, de um famoso diretor nacional, aí o papo engrenou, beijo rolou, e na cama ia acabar.

Aí meu amigo que começou o meu drama. A loira meio alta era um loiro meio alto! Não sei o que falar. Estava em um hotel barato e já ia tirar a roupa dela, ou dele, quando me surpreendi com aquilo. – Bom Ágata (como não me liguei que com este nome só poderia ser um traveco?), eu acho que eu estava bêbado...Ai a loira virou loiro mesmo. –Ta pensando que vai fazer isso comigo seu moleque?

- Não... O não saiu extremamente tremido. Balbuciado de uma forma medrosa, mas com uma indisfarçável excitação também. – O que vai fazer então seu filho da puta? A loira era agora um amalgama de anjo com voz de demônio que despertava medo. Medo do dono voz, mas o medo era logo esquecido pela excitação daqueles seios perfeitos, daquela cintura que só vi nas putas mais caras da minha vida. O problema era o pau. Pau não, um cacete gigantesco.

- Olha, eu nunca tive uma experiência com um homem. Eu disse com medo da reação. A voz de capeta dele simplesmente foi suprimida. – Não amor, eu não sou um homem. Esquece que tenho isso aqui no meio das pernas. E já veio me beijando. E aquela foi a melhor trepada da minha vida.

Mas não acaba aí. Me apaixonei por Ágata. E agora? Ela também correspondeu. E falava que queria ser atriz, fazer filmes e por ai vai. Eu falei que estava de saco cheio de minha produtora (nunca tive coragem de dizer que era bilheteiro de cinema) que iria sair daquele emprego.

Pedi para o cinema me mandar embora. Peguei a indenização e o fundo de garantia de sete anos de serviço. Comprei uma passagem para Amsterdã na Holanda e me mandei com Ágata para lá. Aluguei um apartamento de três quartos no bairro de Rembrandtweg. Em um deles montei uma ilha de edição e me transformei em diretor de filmes pornôs.

A minha estrela? Ela se chama Ágata, mas que também atende agora por Larissa Skywalker. Fazemos três filmes por mês, levamos dois dias para filmar cada um. Vendemos estes filmes a uma produtora local por quinze mil Euros cada e somos dois brasileiros ganhando muito dinheiro na Europa. Em breve volto para o Brasil e quero comprar uma franquia de cinema em algum shopping.